Fonte da imagem: Be Mused Art

sábado, 19 de novembro de 2011

Capítulo último: "Uma terra engolida pela terra"



"Nessa noite, meu pai de adentrou no escuro após a refeição. Seguia para junto do rio, entre os capins mais altos. Pela primeira vez, eu o segui espiando, a espreitar a verdade de sua fantasia de pendurar o esqueleto. Foi então que, por trás dos arbustos, me surpreendeu a visão de arrepiar a alma: meu pai retirava do corpo os ossos e os pendurava no ramo de uma árvore. Com esmero e método, ele suspendia as ossadas, uma por uma, naquele improvisado cabide. 
Depois, já desprovido de interna moldura, ele amoleceu, insubstanciando-se no meio do chão. Ficou ali esparramorto, igual uma massa suspirosa, fossa uma informe esponja. Só os ossos das maxilas ele conservava. Para as falas, conforme depois me explicou. Caso fosse preciso gritar, chamar urgente socorro.
(...) 
 Os políticos dirigentes desfilavam ali em corpo de besta. Cada um trazia nas beiças umas tantas costelas, vértebras, maxilas. Meu pai tentou erguer-se, escapar para longe. Mas assim inesquelético, sem moldura interior, ele apenas minhocava, em requebros de invertebrado. Vendo tanta gente grande focinhando entre as ossadas ele ainda se perguntou: como é que engordaram tanto se já não há vivos para caçarem, se já só resta pobreza? Uma das hienas lhe respondeu assim:
- É que nós roubamos e reroubamos. Roubamos o Estado, roubamos o país até sobrarem só os ossos.  
- Depois de roermos tudo, regurgitamos e voltamos a comer - disse outra hiena. (...)"

Mia Couto

in "O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO"

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