Fonte da imagem: Be Mused Art
segunda-feira, 14 de março de 2011
Qual é o meu talento?
Sempre me senti mal pelo facto de saber que não tenho nenhum talento em especial.
Saber que não sou realmente boa (ou só, boa) a fazer qualquer coisa.
Em garota, tocava num orgão Yamaha espectacular que implorei aos meus pais para me oferecerem.
Sabia tocar as músicas todas que vinham de origem, inventava outras, e até aprendi a tocar de ouvido.
Sabia ler pautas por causa das aulas de educação musical.
Aproveitava os Natais, em que a família vinha toda cá a casa, para fazer peças de teatro e tocar umas músicas natalícias. Toda a gente adorava (ou pelo menos eu ficava com essa sensação).
Toda a gente dizia: "Ai ela tem mesmo ouvido".
Mas os anos foram passando, e o Yamaha foi ficando de parte. Algumas teclas deixaram de tocar.
Foi arrefecendo no ar congelado do sotão. Deixei de saber ler pautas. Deixei de ter mãos para tocá-lo.
E assim foi, a morte do Yamaha.
Dediquei-me à costura.
Na verdade, só aprendi a cozer botões e a fazer pequenos vestidinhos para as bonecas.
Tudo isto porque a minha querida M, modista de profissão, que estará sempre comigo (a minha falsa-avó, a minha segunda mãe) passava dias e dias a ensinar-me enquanto víamos as novelas venezuelanas dobradas em brasileiro da TVI, ou o programa do Marco Paulo, ou a Praça da Alegria do Goucha.
Ainda me lembro do que ela vibrava quando ouvia o Roberto Leal - "É muito charmoso ele. Canta muito bem!". Dizia o mesmo do Marco Paulo.
Também me dediquei à bijuteria.
Fazia colares, pulseiras, anéis de missangas aos quilos.
Aliás, a primeira prenda que dei ao JC foi um colar cor-de-vinho de missangas, que ele retribuiu oferecendo um fio de prata com um crucifixo que levava sempre ao pescoço (e que vim a saber que, como era de esperar, levou um grande raspanete por isso).
Andei entretida durante uns tempos, mas também passou. Passou o tempo e passou o jeito.
Dediquei-me aos trabalhos manuais.
Fazia desenhos engraçados, bandas-desenhadas cómicas, rosáceas em papel, cópias quase fieis de outras imagens que encontrava, entre outras coisas do género.
Passou o tempo, e passou o jeito para o desenho.
Dediquei-me à leitura e à escrita.
Participei em vários concursos de leitura na escola (o que a perna tremia por vezes!).
Escrevia poemas (que os professores gostavam muito), textos filosóficos, escrevia sobre o que via e sentia.
Em relação a isto posso dizer que continuo a lutar para que não me passe o jeito, pois tenho um grande amor pela nossa língua portuguesa, apesar de reconhecer que sou praticamente uma ignorante (e com muita pena minha) no que toca ao conhecimento da nossa literatura.
Dediquei-me ao desporto.
Fiz natação de competição e atletismo durante vários anos.
Adoro nadar, adoro o mar, quero viver ao pé dele durante toda a minha vida.
Nisto era realmente boa porque adorava mexer-me. Tinha um montão de energia (segundo os meus pais) e por isso a forma de canalizá-la era através do desporto.
Claro que todos riam quando viam uma miúda franzina e baixinha a querer praticar vólei ou basket, mas assim que me viam marcar, retorciam os olhos e vinham pedir desculpa.
Tive sempre grandes notas a educação física.
Nisto eu era boa porque não me importava a competição. Eu tinha mesmo prazer em mexer-me.
Quando corria sentia que, com um bocadinho mais de balanço, eu podia voar.
Agora, se disser que ir pôr um saco no lixo é a minha actividade física habitual, até me dá vontade de chorar. E atenção que fico EXAUSTA. Não tenho energia para nada.
Sempre que vou nadar um pouco entusiasmo-me, pensando que ainda tenho a resistência de outros tempos, e nos dias a seguir nem me consigo literalmente, mexer.
Mais do que o jeito, penso que passou a vontade.
Agora...
Agora sou Engenheira. E o que sei eu fazer na prática?
Na realidade muita coisa, mas nada que se aplique no meu dia-a-dia.
Nada que me faça ter "um talento especial".
Tenho uma vida inteira pela frente.
Já não posso ser cantora como nos tempos em que cantava no coro da igreja.
Já não posso ser atleta profissional de Natação como queria em tempos.
Já fiz muita coisa, já gostei de fazer muita coisa.
Agora, posso...posso...
Aprender a tocar viola (como tanto quero), posso tirar o Yamaha do sotão e relembrar-me do seu som, posso aprender a costurar, posso aprender a cozinhar, posso começar a ler grandes autores portugueses e internacionais, posso aprender novas línguas, posso aprender a montar e desmontar um aparelho eléctrico, posso aprender mais sobre circuitos eléctricos, posso voltar a fazer voluntariado, posso voltar a fazer desporto, posso viajar muito e conhecer muita gente e outras culturas, posso abrir a minha empresa, posso aprender a fazer sabonetes...posso...
Espero que a vida me dê tempo e energia para tudo o que quero fazer e aprender.
Tenho 25 anos e sinto-me a pessoa mais "verde" do Mundo!
Qual será o meu talento?
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