Fonte da imagem: Be Mused Art

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Escoliose

Confesso que longe vão as memórias em que tive de enfrentar este problema. 
Há uns dias estava a ver o American Dad e voltou tudo à cabecinha.

Por volta dos meus 14 anos (e até aos meus 17/18), tive de usar um colete ortopédico que ia desde a púbis, até à linha dos seios. 
Tinha uma consistência rígida (semelhante ao das próteses), e usava-se como se fosse um colete de forças, ou como eu preferia achar, como os corpetes das donzelas do século XIX. Só o tirava para tomar banho. 

Isto, porque tinha uma escoliose com cerca de 35º de inclinação, e caso atingisse os 40º, teria de ser operada.
Apesar das imensas dores que me levaram a usar o colete e a prevenir que a coluna entortasse mais, valeu a pena o sacrífico. Não queria ser operada. 

Ainda hoje me doem as costas e custa-me muito fazer tarefas como passar a ferro em pé durante muito tempo, mas nada que me limite muito a vida quotidiana, e que umas sessões de fisioterapia de vez em quando, não tratem. Isto porque tive uma "boa escoliose", ou seja, aquela que tem uma forma em "S". As curvas na coluna equilibram-se uma à outra, evitando maiores pressões e até possível hérnias.

Recordo o primeiro dia em que o usei: o senhor das próteses apertou-me tanto o colete que me tirou a respiração. Não consegui evitar de chorar baba e ranho, mesmo à frente dele. A minha mãe chorou comigo.

De qualquer forma, não ia deixar que isto me arruinasse a adolescência, apesar de estar naquela fase em que a aparência é muito, muito importante para conhecer meninos.
Sempre fui muito activa e por isso continuava a fazer tudo normalmente: a jogar vólei nos intervalos,  a praticar as aulas de educação física activamente (sempre fui boa aluna), a saltitar de um lado para o outro, sem fazer questão nenhuma de esconder o "bicho feio".

Aquilo tirava-me as formas. Fiquei sem rabo, sem maminhas nem cintura, mas fiz questão de fazer tudo aquilo que faria normalmente, o que incluía, deixar que os meninos me conhecessem. 
Quando me tocavam, ficavam em pânico e largavam-me perguntando: "O que é isso?!!!". Confesso que, por vezes, até me dava uma certa piada de ver a sua cara de choque.
Lá tinha eu de explicar tudo desde o príncipio, e o pânico acabava por se transformar em curiosidade e fascínio.

Cedo, todos começaram a reparar que eu tinha uma forma "estranha", o que me fez assumir o que tinha, e para "lutar" contra isso, pedi aos meus amigos para me autografarem o colete. 
Ainda o tenho, todo sarapintado, guardado no sotão. Num cantinho que me dá mágoa quando olho, mas faz-me sentir saudades da pessoa destemida que eu era. 
Sem medo de nada, sem medo de julgamentos, pronta para enfrentar o Mundo. 
Devo dizer que, nesse aspecto, mudei bastante.

Tudo isto para dizer que, apesar deste ser um problema pequenino quando comparado com tantos outros, foi também um problema. 
A sua gravidade e dimensão depende da forma como o enfrentamos. Eu optei por "agarrar o touro pelos cornos", e sinto saudades da pessoa que era.

Quais são os vossos "coletes"?


2 comentários:

Unknown disse...

Eu vou ter de usar um "colete" para o ano que vem, e chama-se Harrison.

Beijos grandes!

T. disse...

E eu vou estar lá para te ajudar a usar esse colete...bem apertadinho! Beijo grd grd*