Fonte da imagem: Be Mused Art

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Quem sou eu?

Disseram-me que em tempos passados eu tinha sido um guerreiro na Etiópia, através de uma daquelas tabelas budistas de reencarnações passadas.
Se o fui, reconheço muito pouco desse guerreiro.

Na minha vida passada devo ter sido Americana. Sim, Americana.
No livro que estou a ler (Comer, Orar, Amar), Liz dizia que os Americanos são um povo que sente vergonha do prazer. Trabalham tanto, mas tanto (e sentem prazer nisso) que, para eles a noção de prazer extra-trabalho passa por se sentarem no sofá a comer um gigante pacote de batatas/bolachas/etc, sem se sentirem impelidos a participar nas suas vidas familiares.
Sentem remorsos por tudo o que fazem que lhes transmita esse sentimento, ou seja, comem o pacote de batatas, sentem remorso por o terem comido, dali a uns tempos voltam a fazer o mesmo, e voltam a sentir remorsos novamente. Torna-se isto tudo, num ciclo vicioso sem fim.

Isto porque Liz gabava a capacidade dos Italianos de desfrutarem do seu famoso dolce fare niente, em que para eles, não fazer nada, ou sentir prazer em fazer algo, era um verdadeiro orgulho. Isto porque eles sentiam-se orgulhosos de poder aproveitar dessa forma o fruto do seu trabalho árduo. Se eles trabalhavam tanto, mereciam gozar os prazeres da vida. Sem remorsos.
Desde pequenina que penso que nunca retirei realmente prazer de fazer algo, sem ter esse tal sentimento de culpa.
Na verdade, não sei porque sou assim porque, tal como já disse, sempre tive tudo aquilo que precisava.
Sempre que os meus pais me davam alguma coisa eu dizia sempre:
"Mas porque vais gastar dinheiro nisso? Eu não preciso disso. Eu estou bem assim!".

Ainda hoje penso assim. Antes de comprar uma porcaria qualquer que custa 5€, fico a pensar que é dinheiro mal gasto numa coisa inútil, que não vale a pena, e que há gente que precisa muito mais do que eu. E isto depois de uma boa meia hora de hesitação, em que acabo por não levar nada.
É uma estupidez ser assim, eu sei, mas não sei como contornar isso.

Acho que bati o fundo no dia dos meus anos. Levei o J.C. a jantar num restaurante e a única coisa que eu pensava era em quanto ia gastar no jantar, pois não queria de maneira nenhuma, desperdiçar dessa forma "tão vergonhosa", o dinheiro que os meus pais me tinham dado para o efeito. Não consegui desfrutar de nada. Tal como não o faço há muito.

Isto porque dou todos os dias graças ao Universo por poder ter tido o privilégio de tirar um curso superior, sem me preocupar com propinas, sem me preocupar com nada que não fosse o curso (que já de si deu-me muitas dores de cabeça, e consumiu-me como só eu sei), o que ia vestir no dia a seguir, e pouco mais.

Ainda no outro dia, quando fui a uma entrevista perguntaram-me:
"Mas porque é que você não foi viver para junto da faculdade, quando ainda mora tão longe?".
Ao que eu respondi: "Porque simplesmente não quero dar esse encargo aos meus pais e, se para isso implica gastar cerca de 4 horas por dia em transportes, eu faço-o, porque é assim que fico bem com a minha consciência".
É claro que ele deve ter pensado outra coisa. Deve ter pensado que eu era uma acomodada, que não queria sair da situação onde estava. Não poderia ter sido mais honesta. Ás vezes penso que isso é um defeito.

Não quero saber. A minha grande angústia é de facto, ter a idade que tenho, e não poder ter ainda as coisas que tanto sonho, coisas que quero conquistar com o meu trabalho, e que não quero de maneira nenhuma que me sejam dadas pelos meus pais. Vou lutar por isso.

Sei que pareço uma velha do Restelo. Estou sempre a queixar-me do que não tenho e do que gostaria de ter.
Sempre fui assim. Sempre tive pressa de viver a vida. E não me orgulho disso, nada mesmo. Simplesmente esse sentimento torna-se cada vez mais angustiante porque está tudo fora do meu controle. Mesmo.

Não quero ser mais velha do Restelo. Quero poder desfrutar da vida sem dar cavaco a mim mesma. Só assim é que acho que poderei ser realmente feliz. Afinal, eu já o sou, mas queria ser em pleno.

Porque raio é que eu própria impeço a minha felicidade?


Vou fazer um esforço para mudar...


P.S. Nunca pensei "despir-me" desta forma no blog, mas como encarei esta aventura como um diário pessoal, aqui estou eu.

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